Sarajevo, Mostar e "Nossa Música" (Jean-Luc Godard, 2004): Histórias presentes e do passado (Parte 2)

 No dia seguinte a todas as andanças mostradas na Parte 1 desse relato, acordei cedo para ir a Mostar. Na verdade, para ver a ponte de Mostar que aparece durante a busca da personagem Judith Lerner (Sarah Adler), do filme "Nossa Música" (2004), sobre a possibilidade de reconciliação em lugares de conflito. 

Mostar é a capital da Herzegovina (que forma o país junto com a Bósnia) e está a umas três horas de ônibus de Sarajevo, na direção do litoral. A rodoviária fica próxima ao hotel Holiday Inn, onde a personagem judia israelense Judith entrevistara o escritor palestino real Mahmoud Darwich. Indo para a rodoviária passa-se por essas torres de vidro, que já estavam na época do filme.


No filme de Godard



Foto minha 

Da janela do ônibus, vejo na aveida Zmala od Bosnie, que corta a cidade, uma das "rosas de Sarajevo": são lugares onde bombas explodiram na época da guerra e foram depois recobertas com cimento vermelho na forma de flor. O filme de Godard também traz uma delas.

Foto minha





No filme de Godard








Embora não seja uma cidade litorânea, Mostar tem um clima muito mais agradável (Sarajevo estava uma "geladeira" no inverno; depois é que me dei conta do motivo por que os Jogos Olímpicos de inverno de 1984 foram lá: estava numa estação de ski!). No caminho, paisagens lindas da descida da montanha, ao mesmo tempo em que passávamos sempre por túmulos ao longo da estrada. 

Mostar é uma cidade turística para além da ponte, com muitos cafés e locais de artesanato. Mas tinha percorrido todo aquele caminho e iria voltar no mesmo dia por causa de uma ponte, "a ponte" (a Stari Most, "ponte velha"; aliás, o próprio nome da cidade vem de "ponte"), presente em toda uma sequência do filme de Godard. Nela, a personagem Judith fotografa a ponte em reconstrução (foi destruída na guerra, assim como o interior da Biblioteca de Sarajevo) e lá vê indígenas norte-americanos, que Godard inclui no filme como mais um povo destituído de suas terras e lutando por sua sobrevivência. 

Ponte de Mostar no filme de 2004
Ponte reconstruída, 2023





















Nessa sequência, Godard faz um travelling, mostrando a parte da direita da cidade. Dividi em várias fotos e numa foto panorâmica, tentando dar uma visão geral.

Parte à direita da ponte, filme de Godard







Foto minha, parte direita da ponte


Parte direita da ponte, filme de Godard







Foto minha

Foto minha panorâmica


A personagem Judith tira fotos da ponte, assim como eu, e vê os representantes indígenas norte-americanos.

No filme de Godard







Eu em foto automática diante da ponte









Judith observa os indígenas norte-americanos







Os observados


Foto minha observando pessoas no local

É realmente impressionante imaginar todo o trabalho de reconstrução da ponte, que é explicado no filme: cada uma das pedras foi numerada e recolocada no local certo. Na imagem do filme, Judith está sentada em meio às pedras. Na minha foto, nostro a parte de cima da ponte depois de reconstruída (se não soubéssemos da guerra, nunca poderíamos imaginar que aquilo é uma reconstrução).

As pedras, no filme de Godard







A ponte reconstruída com suas pedras









Como disse, fui basicamente a Mostar por causa da ponte (embora a cidade valha um passeio com mais calma) e voltei no mesmo dia, ainda a tempo de visitar o museu de arte de Sarajevo, que ficava aberto no inicio do noite.

A parte do Purgatório do filme de Godard termina, como o seu começo, no aeroporto de Sarajevo, de onde também voei.

No filme de Godard







No dia da minha saída

No entanto, como escrevi no início da parte 1 deste relato, um dos motivos que tornavam Sarajevo um local mítico para mim era por ser o lugar do estopim da Primeira Guerra Mundial. Embora Godard não faça menção a esta, dentre as muitas guerras do presente e do passado que mostra no filme, permito-me um epílogo aqui para contar a emoção da visita ao Museu de Sarajevo 1878-1918, localizado exatamente na esquina em que Gavrilo Princip atirou no herdeiro do trono austro-húngaro, o arquiduque Franz Ferdinand. Essa esquina fica na frente da Ponte Latina, umas das muitas pontes sobre o rio Miljacka. No dia do assassinato, o herdeiro do trono havia visitado com sua mulher a Biblioteca (mostrada na parte 1 do relato e circulada no mapa para dar uma melhor ideia) e seguiu em carro aberto pelo local.




O museu, com fotos do assassinato









A Ponte Latina, em frente ao museu


Indicação do local onde o assassino se postou







Encenação feita por Plinio


 










Fotos do museu que também estão nas suas paredes do lado de fora


Termino esse relato reforçando a emoção que foi visitar esses lugares cheios de História(s), de guerras passadas e presentes, de reencontrar lugares do filme de Godard por acaso (pois não o revi antes da viagem e fiz todo um trabalho agora de saber o que realmente do filme tinha fotografado durante a viagem). E, para terminar mesmo, deixo duas das primeiras fotos de Sarajevo que fiz ao sair da porta do hotel, na manhã seguinte (havia chegado tarde da noite no dia anterior), maravilhada com a sua beleza mesmo num dia cinzento, o que lhe dava, por outro lado, uma atmosfera mítica. E, por sorte, a biblioteca ficava mesmo pertinho do Hotel Boutique Libris onde estava.

Sarajevo, manhã de inverno de 2023


Biblioteca/Prefeitura de Sarajevo, 2023


Comentários

  1. Que delícia esses seus passeios paracinematográficos. Sarajevo e Mostar são realmente emocionantes.

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  2. Que bom que gostou! Sim, são muito emocionantes! Das melhores viagens que fiz em muitos anos.

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